Arquivo para 26/11/2012

Metrô em Dia de Chuva

Posted in Momento Sr. Saraiva, Viagens with tags , on 26/11/2012 by Kilminster

É cair uma aguinha do céu que o metrô já se transforma completamente e o que já não era a coisa mais maravilhosa do mundo, vira o caos total.

Metrô em dia de chuva é uma das experiências pela qual todas as pessoas deveriam passar ao menos uma vez na vida.

É esta uma vivência que pode proporcionar o exercício de diversas virtudes muito apreciadas pela moral cristã e pelas outras também.

Você terá que se armar de toda sua paciência porque sabe que o trajeto vai demorar muito mais que o normal.

Vai ter que lançar mão de toda a caridade que está em seu coração, pois você sabe que, por mais lotado que esteja o vagão, aqueles irmãos amontoados na plataforma da próxima estação também precisam entrar.

De você será exigido o perdão, porque os irmãos supracitados vão entrar. Ainda que tenham que escalar o seu pescoço e instalarem-se em sua cabeça.

Você poderá perceber a igualdade, pois o gerente vestido com o terno caro estará espremido do mesmo modo que o operário de roupa manchada de graxa.

Pensado melhor, muito mais do que ideais cristãos, isso parece o manual de iluminação do Dalai Lama. Parece só! Porque do outro lado da moeda está a incompreensão, a ira, a soberba e a intolerância!

Porque esta porcaria não anda? E esses caras aí fora! Não estão vendo que não cabe mais ninguém! E essa aí! Precisa carregar bolsa, pasta e mais uma sacola? O Metrô deveria cobrar adicional de bagagens de malas que carregam umas às outras!

E o infeliz do condutor, está esperando o que para ligar a ventilação? E o que é mais irritante do que ficar parado entre uma estação e outra? Ainda mais com chuva e todas as janelinhas fechadas. Isto é um convite às epidemias. Olha as epidemias!!!

Porém, de que adianta se irritar? Vai ser assim mesmo! É em momentos como esse que você pode perceber quem se utiliza do metrô todos os dias e quem caiu lá de pára-quedas.

Os habituais passageiros da condução estarão espremidos em pé, de cabeça baixa, tentando se mexer o mínimo possível, com um olhar resignado ou até mesmo de olhos fechados, imaginando uma praia ensolarada com uma brisa fresca ou então o vento que bate trazendo os respingos de uma cachoeira.

Já aqueles que só se valem esporadicamente do metrô estarão inquietos, dançando de um lado para o outro, distribuindo cotoveladas e pisões nos pés dos outros e reclamando em voz alta esperando conseguir aliados para as reclamações.

Neste grupo incluem-se os idosos, que fazem questão de entrar no primeiro trem que passa, ainda que fiquem comprimidos entre as pessoas e as portas e ainda que pessoas mais jovens e fortes decidam que é necessário esperar o próximo.

Para coroar toda a situação, que pode te deixar de rostinho colado com um completo desconhecido, existem as mensagens proferidas pelo condutor, que está sozinho sentadinho na cabine, com os vidros abertos, ventilação, sem aperto nem pressa.

São sempre avisos bastante razoáveis mas que acabam se tornando surreais dentro de tal contexto. Por exemplo:

“Ao embarcar, não permaneça na região das portas” – Como se houvesse outro lugar nesta porcaria lotada! Eu bem que preferiria estar sentado!

“Os assentos de cor azul são de uso preferencial, respeite este direito” – Difícil é fazer o beneficiado chegar a tais assentos.

“Não impeça o fechamento das portas. Evite atrasos” – Primeiro: já está atrasado. Segundo: melhor seria dizer “Não prenda o crânio nas portas. Evite decapitação.”

“Na impossibilidade de embarque, aguarde o próximo trem.” – Hahaha! Diga isso ao meu chefe!

O pior de tudo é que não tem alternativa. Escolha seu mantra e boa viagem.

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