Incoerências da Vida

Vamos fazer uma conta simples. Em condições normais de temperatura e pressão, um dia tem 24 horas. Destas 24, passamos 8 dormindo (ou pelo menos deveríamos), restam 16.

Destas 16 em que estamos acordados, temos que trabalhar durante 8, com mais uma hora de almoço, 9. Restam 7. Das sete restantes, gastamos mais ou menos uma hora no trajeto casa-trabalho e outra no trajeto trabalho-casa, Restam 5.

Destas 5, gastamos 1 hora entre acordar, tomar banho escovar os dentes, preparar e tomar café, nos vestirmos e sairmos para o trabalho. Sobram quatro.

Destas quatro, levamos mais 2 para preparar uma janta rápida, jantar e lavar a louça.

Restam então, longas duas horas para descansar, ver TV, pegar um cinema, ir à academia, bater uma bola com os amigos, namorar, ler, fazer palavras cruzadas, aulas de violão, curso de fotografia, fazer caminhada, arrumar a casa, botar roupa para lavar, passar a roupa, consertar a tomada, fazer as unhas, ir ao cabeleireiro, fazer curso de inglês e espanhol, faculdade, pós-graduação, MBA, ir ao médico e ao dentista, dar uma varrida, fazer uma sobremesa, visitar um amigo ou parente, tomar uma cerveja e outras atividades do gênero.

Ao que me parece tem alguma coisa errada aí. Das 16 horas em que ficamos acordados, temos parcas duas horas para cuidarmos de nós mesmos e temos outras 14 dedicadas ao trabalho. Um desequilíbrio bastante sério, a meu ver. E isso porque a rotina descrita acima se refere a alguém sem filhos.
Dentro deste quadro, o que começa a acontecer? Reduzimos nossas horas de sono. Quem aqui dorme 8 horas por dia? Difícil, hein?

É totalmente sem sentido levarmos uma vida tão voltada ao trabalho quando na verdade o trabalho deveria ser o meio e não o fim. É como aquela história: “Você trabalha para quê? – Trabalho para comer. – E para que você come? – Para ter força para trabalhar”.

Isto tem reflexo direto nos finais de semana, que a CLT chama de descanso semanal remunerado. Descanso de quem? Nosso é que não é. Final de semana é hora de fazer tudo que ficou pendente da semana inteira. E aí ainda entra outra, trabalhamos cinco dos sete dias da semana, (isso para quem tem a sorte de um emprego de segunda-feira à sexta-feira), para termos dois de descanso, apenas.

Resultado: a maior parte de nossos dias e horas são dedicados ao que deveria ser apenas nosso meio de vida! Se trabalhamos demais e não temos tempo para dedicar a nós mesmos, não temos vida, temos meramente uma sobrevida.
Qual e o sentido de viver apenas para se manter vivo? Como já dizia Arnaldo Antunes, “a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte”!

Como aceitamos viver em um mundo em que o homem existe em função do trabalho? O trabalho é que deveria existir em função do homem. Mais uma vez a humanidade foi para o lado errado.

Uma resposta to “Incoerências da Vida”

  1. É exatamente isso. E não vai mudar, pois a juventude que deveria ter vontade de subverter essa ordem, sonha em ser um executivo de sucesso antes dos trinta anos de idade. Aí faz graduação, pós-graduação de péssima qualidade, MBA e o diabo. Tudo muito rápido para que não tenha jamais tempo de pensar em sua vida medíocre e em sua insatisfação constante e crescente. Simplesmente não dá pra ter fé na humanidade.

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