Arquivo para março, 2009

Da Missa um Terço

Posted in Momento Sr. Saraiva, Olhares on 30/03/2009 by Kilminster

Àqueles que não conhecem da missa um terço, recomenda-se que não entrem na reza sob o risco de clamarem ao santo errado e receberem a graça pelo avesso. Murmurar palavras decoradas sem dar-lhes o devido significado não faz sentido.

É como fazer um trabalho em um terreiro de religiões afro-brasileiras. E melhor saber o que está fazendo, porque alguém pode chutar o despacho e o Exu vai encarnar na sua vida acabando com seu sossego.

Divindades, como conceberam os gregos, são ciumentas, possessivas, vingativas e por vezes cruéis. Não convém provocá-las com sacrifícios medíocres para graças inatingíveis.

Questão de fé é difícil. Cada um acha de acreditar na mesma coisa de um jeito diferente. Aí começam uma série de confusões que não têm a menor razão de ser. Discussões intermináveis entre duas ou mais partes tentando dizer o mesmo…

Só não vale jogar para os deuses a culpa por aquilo não lhes compete

 

 

Enquanto o Mundo Cai

Posted in Viagens on 26/03/2009 by Kilminster

É uma sequência de sonho. Aliás tudo até ali parecia um sonho. Nada fazia muito sentido, muito embora houvesse uma pequena conexão com o real.

Aí de uma hora para outra os dois se encontram em um salão repleto de gente. Gente que àquele momento não tem a menor importância e que parecem de fato não estar ali.

Ela sente a presença dele pelo ar, como se o tempo todo soubesse que ele estaria ali, e ele sorri, sabendo o tempo todo que ela viria. Em meio aos rostos desimportantes que giram em seu entorno, eles se perdem por alguns momentos até que se encontram.

O olhar dele é firme, seguro, ciente do que quer e do que está acontecendo. O dela, amedrontado, furtivo e desprotegido. Eles então se juntam em uma dança, uma dança dele, dela, de realidade e imaginação.

Ela, jovem demais se vê exposta às dualidades da existência humana. Está entre o ódio e o fascínio, a repulsa e o desejo, entre o mundo fantástico de criança e o realismo do mundo adulto. Ela não sabe muito bem quem ela é ali ao mesmo tempo em que se descobre e se define.

Ele a controla, conduz e domina sem que ela se dê conta. Gira com ela pelo salão e a fascina com seu olhar. Sabe que está conseguindo o que quer, mas ao mesmo tempo, ele percebe que o que ele quer não é o que roubou dela, mas ele a quer de fato. Já não importa se ela vai conseguir tomar de volta o que ele pegou, mas sim se ela vai estar ali. E inconscientemente ele se entrega e se desespera por tê-lo feito. Por baixo de toda sua aura de segurança ele percebe que não tem defesas contra ela.

Mas naquele momento único, os dois estão conectados de forma inexorável, com todas as suas energias convergindo a um só ponto, ainda que possam ser opostas. Naquele momento, os dois são um, enquanto o mundo cai.

Escraaaavos de Jó…

Posted in Viagens on 18/03/2009 by Kilminster

Matemática

Posted in Olhares on 17/03/2009 by Kilminster

1=1

1+1=2, mas 1+1 pode ser = 1, assim como 1+1 pode ser = 1 e 1. (1+1=2) < (1+1=1) > (1+1= 1 e 1).

1+1+1= 1 e 1 e 1, ou 1+1+1= a 2 e 1. 1+1+1 jamais = 1. Em casos extremos, 1+1+1=0.

Se 1 > 1 ou 1 < 1, 1+1= 0. Quando 1+1= 0, a operação só é possível alterando-se o sinal para 1-1= 1 e 1, ainda que 1 ou 1 tenham temporariamente seus valores reduzidos.

Quando 1 for 1 novamente, 1+1=1, na equação perfeita c.q.d.

Dia de Ver as Árvores

Posted in Olhares on 13/03/2009 by Kilminster

Aqui onde eu trabalho, é um prédio bem alto no Centrão Velho de São Paulo. E da janela dá pra ver a Serra da Cantareira. Na maioria dos dias poluídos de Sampa, a serra é apenas uma grande muralha azul-acinzentada lá longe. Mas em dias como estes em que chove e o céu limpa, a muralha muda de cor, passando a ficar verdinha tornando possível identificar o contorno das árvores agrupadas. Claro que a essa distância não dá para ver cada árvore, mas as copas de todas elas formam uma textura que não dá para ver nos dias mais enevoados.

Quando o dia está assim, normalmente há um lindo sol e um céu azul com nuvens espalhadas, como se fosse em um desenho de criança.

Esta simples visão de um horizonte bucólico no fim do mar de concreto é um alento para as almas apressadas de paulistanos frenéticos. Um toque de beleza emoldurando a paisagem rígida da metrópole suavizando a visão cortante dos incontáveis prédios.

E toda vez que eu olho pela janela e percebo a textura na serra, me vem à cabeça a frase “Hoje é dia de ver as árvores”. Não sei porque. Simplesmente me ocorreu, como se outra pessoa tivesse dito. Então, para mim, os dias de trabalho quando há sol lá fora e o céu está claro, são “dias de ver as árvores”.

Quando é dia de ver as árvores, eu consigo dar uma diminuída na tensão com a simples noção de que o mundo vai além da rotina cinza de quem trabalha.

Quando é dia de ver as árvores, um sorriso me brota no rosto e o tempo passa mais agradável, porque eu sei que o mundo inteiro está lá fora e que a vida é mais do que nos querem fazer crer.

muralha-azul

O Fenômeno

Posted in Esportes on 12/03/2009 by Kilminster

Eu não poderia mesmo ficar fora de um assunto destes, mesmo que quisesse evitar. O mundo futebolístico anda em polvorosa e isto se deve a uma única razão: Ronaldo.

Contratado pelo Corinthians em uma jogada magistral de marketing, o maior artilheiro da história das Copas do Mundo voltou a jogar em campos brasileiros, coisa que não fazia por um clube desde que era ainda um adolescente.

Um dos maiores jogadores dos últimos tempos, Ronaldo retorna ao futebol como uma incógnita. Vindo de contusões seríssimas, não realiza uma partida completa há sabe se lá quanto tempo, e jogando bem de verdade, desde a final da copa de 2002.

Mas eis que ele chega ao Corinthians, time de massa, com uma torcida enorme, apaixonada, na maioria das vezes cega e muito suscetível ao famoso pão e circo.

Fez uma estréia modesta, contra o Itumbiara pela Copa do Brasil, e disputou alguns minutos do clássico contra o Palmeiras.

Se no primeiro jogo quase não apareceu, a não ser por ser quem é, no segundo, foi bem e fez algumas jogadas bastante interessantes, meteu um balaço na trave e fez um gol, em uma falha da defesa palmeirense que passou absolutamente despercebida em razão do tento ter sido assinalado pelo Fenômeno. Tivesse o gol sido marcado por Souza, a imprensa esportiva teria comentado como o goleiro saiu mal, como o zagueiro ficou dois passos a frente dele deixando-o livre para o cabeceio e, como gosta de dizer Alberto Helena Jr.,  “lousa, cousa e maripousa”.

Depois do gol no clássico, empatando a partida já nos acréscimos, uma euforia histórica tomou conta da imprensa e da torcida, (a qual tem pleno direito de fazer isso). Ronaldo agora aparece como um messias para alçar o Corinthians aos píncaros da glória e trucidar adversários como quem esmaga uma formiguinha.

Ninguém discute a história de Ronaldo e seu passado como grande jogador, porém, seu presente é algo que ainda não merece tamanho carnaval. Apesar de ter jogado bem contra o Palmeiras e ter feito o gol salvador, ele continua acima do peso, não sabemos se seus joelhos aguentam uma grande sequência de jogos, e como ele vai se portar diante de zagas mais eficientes do que a frágil defesa palmeirense.

Sim, Ronaldo é um jogador acima da média, mas ainda não podemos dizer que ele vai retomar sua boa forma. A catarse coletiva agora diz Ronaldo, Ronaldo, Ronaldo, mas os corintianos não podem se esquecer que há apenas três anos era Tevez, Tevez, Tevez e todo mundo viu onde a coisa toda foi parar. Um time é composto de onze jogadores. Um craque ajuda, mas nada faz sozinho. Euforia não leva a nada e como se diz por aí, futebol é dentro das quatro linhas.

Menos, menos…

Insônia Dominical

Posted in Viagens on 09/03/2009 by Kilminster

Já é tarde, todo mundo está dormindo e eu estou aqui… Sem sono, sem vontade de ir para a cama e me esforçando para que a segunda-feira não chegue.

Sei que vou ficar com sono amanhã o dia inteiro, mas de que me adianta ir deitar e ficar rolando na cama, pra lá e pra cá…

A loucura da semana faz a gente dormir até tarde no domingo, aí a noite chega e a gente não tem sono. O melhor seria mesmo estar sonhando com os anjinhos, mas não dá.

Tá um silêncio só lá fora, na TV, nada que preste. Como companhia, só as teclas e o mundo do outro lado da tela. Estranho e solitário, ter o mundo todo conectado e todo mundo sozinho ao mesmo tempo. Porque todos dormem, feliz de quem dorme. Dormem todos. Todos menos alguns, como eu.

Aí é só aquele barulhinho: tec, tec, tec, tec, tec, tec, tec… Palavras jogadas no vazio e suas respostas que chegam. Por vezes interessantes, por vezes sem importância, por vezes engraçadas, mas estão lá e ajudam o sono a chegar, ou pelo menos a curtir a insônia com menos angústia.

Depois de um tempão, os olhos começam a querer fechar, aí me arrasto até a cama e vai mais uma meia hora antes de pegar no sono. A segunda-feira está chegando implacável e não demora o rádio-relógio a despertar. E mais uma semana de bocejos vai começar…