Arquivo para dezembro, 2008

Chinese Democracy

Posted in Sons on 04/12/2008 by Kilminster

Aos berros Axl Rose há dezessete anos desafiava o mundo, quando os então aguardadíssimos “Use You Illusions I e II” do Guns n’ Roses, a então maior banda do mundo, foram lançados. Na época, formaram se filas durante a madrugada para esperarem nas portas das lojas pela oportunidade de ter em mãos a tão aguardada bolacha. Ainda não vivíamos tempos de internet quando todas as músicas de todos os discos vazam bem antes do lançamento.

Hoje, uma expectativa diferente se formou em torno do ultra aguardado, comentado, adiado, exagerado e outros adjetivos mais, “Chinese Democracy”. É o fim de um hiato, de um mistério e de uma lenda. O álbum prometido há mais de uma década finalmente foi lançado.

Como eu havia previsto aqui, (http://cronicasabsurdo.blig.ig.com.br/2006/01/sexo-drogas-rock-and-roll.html), a maior parte da crítica caiu matando encima do disco, mas isso é fácil. Fácil porque desde que o Guns n’ Roses atingiu o topo do mundo, seguido da superexposição de suas exentricidades e os grunges com sua postura loser, (muito mais parecidos com os críticos musicais), assumiram o controle das paradas de sucesso, o maior divertimento da imprensa especializada é falar mal de Axl Rose.

Porém, vamos ao disco:

Chinese Democracy não tinha mesmo como superar as expectativas depositadas encima de seu lançamento, afinal de contas, a banda se desmantelou, Axl, solitário, foi se tornando uma espécie de Michael Jackson do hard rock e muito tempo se passou.

O disco de fato se perde em algum lugar entre a tentativa de soar moderno e de manter a vibe característica da banda. O problema, é que um disco que vem sendo trabalhado há treze anos não tem como soar moderno! Muita água passou por debaixo da ponte nesse tempo todo. Há coisas lá que só poderiam ter sido lançadas no meio da década de 1990, soando datadas nesta primeira década do novo milênio.

O excesso de produção é outro problema. Os arranjos, por vezes carregados demais, não deixam que a música capture o ouvinte.

A longa duração das faixas também é um ponto contra fazendo com que várias delas se pareçam e cansando um pouco. “Better”, por exemplo, com um minuto a menos seria um hit instantâneo.

E Axl berra. Berra muito e muito agudo. Agudo como poucas vezes fez nos discos anteriores, e olhe que isso não é pouco!

O lado positivo do disco está nas faixas mais “estranhas”, por assim dizer, principalmente as baladas como “Sorry” e “If the World” onde o excesso de produção não afeta tanto o lado orgânico das canções.

Como saldo final, temos um disco apenas médio, bastante pop, cheio de baterias eletrônicas, cinco guitarristas diferentes e que não lembra em nada o velho Guns. A ausência da guitarra clássica de Slash é um buraco difícil de se preencher assim como a veia punk de Duff McKagan que sempre deu à banda aquela pulsação energética vinda das ruas, tão característica nos outros álbuns.

Tivesse sido lançado como um disco solo de Axl, talvez “Chinese Democracy” contasse com uma maior indulgência do público e da crítica, porque não há nada de Guns n’ Roses no álbum, a não ser o próprio nome na capa e os berros de Axl nas faixas.

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Jai Sri Krishna

Posted in Sons on 02/12/2008 by Kilminster

Ele era o mais novo, o mais quieto, o mais místico, o mais misterioso, o mais irônico, com o senso de humor mais ácido e era o que tinha maior capacidade de autocrítica, esta até demasiada.

Conseguiu impressionar os garotos mais velhos e convencê-los de que com ele seria melhor. Tinha um talento que faltava aos outros. Uma dedicação que fez dele o melhor instrumentista.

Passou anos sufocado entre o canhoto à sua direita e o destro á sua esquerda. Sequer tinha um microfone seu. Alternava-se de um lado a outro conforme a música e além de não ter a personalidade forte destes, não tinha também o carisma de seu companheiro do fundo do palco.

Mas tinha uma musicalidade e uma precisão fora do comum. Uma noção exata do que tinha que fazer e quando fazer. Soube ser o melhor sem ser o mais espalhafatoso. Soube dizer tudo em poucas palavras. Concentrar em uma nota o que a maioria não consegue em dezenas de escalas.

Nos poucos espaços que lhe deixavam ele encaixava pérolas de brilho raro e incomum. Suas canções eram do mesmo nível e por vezes melhores que as dos gênios que o rodeavam.

Entendeu que o verdadeiro mote da existência é a alma, e não a matéria. Voltou seus olhos para o leste e descobriu novas formas de enxergar o mundo. Influenciou seus companheiros e mais metade do mundo. Criou coisas novas e jogou aos olhos dos incultos um universo completamente novo.

Percebeu logo também que a maioria só tinha capturado meia mensagem e se distanciou, aprofundando-se em sua busca.

Não buscava o centro do palco, nem os holofotes, mesmo quando saiu da sombra dos dois gigantes que mantinha ao seu lado

Em sua habitual discrição inventou modestamente os concertos beneficentes e o jeito de usar o que sabia fazer de melhor para algo mais relevante. 

Em sua modéstia, muitas vezes superou aqueles que o ofuscaram por anos mostrando uma arte maior em seu caminho solitário.

Não usou de seu passado glorioso para fortuna e fama, usou sua fortuna e fama para seu próprio futuro. Viveu sua vida como queria e partiu, há sete anos, sabendo que apenas começava a viver.