Arquivo para 15/12/2008

Posted in Viagens on 15/12/2008 by Kilminster

                Na madrugada fria os homens estavam sentados à beira das fogueiras, a maioria dormia, ou fingia dormir. Podíamos ver as fogueiras dos inimigos do outro lado do vale. Sabíamos que pela manhã haveria uma batalha. Eu, um novato, ainda sem anéis de guerreiro, e sem sequer um escudo decente, ouvia um de nossos lanceiros mais velhos contar suas histórias.

– Já matou alguém, garoto? – Perguntou o velho lanceiro enquanto atiçava com uma faca a brasa da fogueira insuficiente para frio do outono – É uma sensação única. Nada se compara a isto. Você está lá no calor da batalha, sentindo somente ódio por aquele que está a sua frente. É só a cegueira e a raiva, o ímpeto de atacar potencializado pelo medo de ser ferido. Você olha o inimigo e só pensa em cortá-lo ao meio.

                O velho baixou os olhos e enfiou na boca um pedaço de pão duro. Seus olhos pareciam lacrimejar enquanto ele mastigava.

– Eu já matei muitos homens – continuou – E os deuses sabem o quanto eu quis matá-los e como urrei em triunfo cada vez que minha espada atravessou suas malhas, cada vez que parti seus elmos… cada vez que abri suas gargantas com um giro rápido e certeiro… Sempre fui bom em matar. Na verdade, é só o que sei fazer, por isso continuo, e continuarei até que um dia um garoto abusado como você consiga me derrotar.

                Eu não respondi. Apenas fiquei ali sentado tentando decifrar o que queria dizer aquele brilho em seus olhos, distantes, que refletiam o vermelho da fogueira. Aqueles olhos perdidos em seu rosto velho, entre as cicatrizes e rugas, o cabelo desgrenhado e a longa barba trançada.

                Ele, no que pareceu um esforço enorme, finalmente deixou sair o que estava pensando:

– E cada vez que eu matava, cada homem que eu mandava para o Valhalla, eu sentia que os deuses falavam através de minha espada. E hoje, quando me lembro desses homens, e juro por minha alma que me lembro de cada um deles – ele parou como se tentasse conter as lágrimas – Quando vejo suas imagens, com os olhares embaçados e as gargantas gorgolejando com o sangue e suas expressões de terror, só consigo entender que eles são como nós. Exatamente como nós. Que estiveram na noite anterior às batalhas sentados em volta de suas fogueiras, ouvindo os veteranos contarem suas histórias de glória e vitórias, que estavam com tanto medo quanto nós e que sentiam por nós o mesmo ódio. A guerra, filho, é como atacar nosso reflexo em um lago de águas paradas. Na guerra, matamos a nós mesmos.