Arquivo para 02/12/2008

Jai Sri Krishna

Posted in Sons on 02/12/2008 by Kilminster

Ele era o mais novo, o mais quieto, o mais místico, o mais misterioso, o mais irônico, com o senso de humor mais ácido e era o que tinha maior capacidade de autocrítica, esta até demasiada.

Conseguiu impressionar os garotos mais velhos e convencê-los de que com ele seria melhor. Tinha um talento que faltava aos outros. Uma dedicação que fez dele o melhor instrumentista.

Passou anos sufocado entre o canhoto à sua direita e o destro á sua esquerda. Sequer tinha um microfone seu. Alternava-se de um lado a outro conforme a música e além de não ter a personalidade forte destes, não tinha também o carisma de seu companheiro do fundo do palco.

Mas tinha uma musicalidade e uma precisão fora do comum. Uma noção exata do que tinha que fazer e quando fazer. Soube ser o melhor sem ser o mais espalhafatoso. Soube dizer tudo em poucas palavras. Concentrar em uma nota o que a maioria não consegue em dezenas de escalas.

Nos poucos espaços que lhe deixavam ele encaixava pérolas de brilho raro e incomum. Suas canções eram do mesmo nível e por vezes melhores que as dos gênios que o rodeavam.

Entendeu que o verdadeiro mote da existência é a alma, e não a matéria. Voltou seus olhos para o leste e descobriu novas formas de enxergar o mundo. Influenciou seus companheiros e mais metade do mundo. Criou coisas novas e jogou aos olhos dos incultos um universo completamente novo.

Percebeu logo também que a maioria só tinha capturado meia mensagem e se distanciou, aprofundando-se em sua busca.

Não buscava o centro do palco, nem os holofotes, mesmo quando saiu da sombra dos dois gigantes que mantinha ao seu lado

Em sua habitual discrição inventou modestamente os concertos beneficentes e o jeito de usar o que sabia fazer de melhor para algo mais relevante. 

Em sua modéstia, muitas vezes superou aqueles que o ofuscaram por anos mostrando uma arte maior em seu caminho solitário.

Não usou de seu passado glorioso para fortuna e fama, usou sua fortuna e fama para seu próprio futuro. Viveu sua vida como queria e partiu, há sete anos, sabendo que apenas começava a viver.