Arquivo para outubro, 2008

Mc Donald’s

Posted in Olhares on 28/10/2008 by Kilminster

Ainda bem que eu nunca trabalhei no McDonald’s! É uma loucura ver todos aqueles garotos e garotas correndo como loucos atrás do balcão, gritando uns com os outros e sofrendo para atender os pedidos que chegam incessantemente dos inúmeros clientes que adentram as lojas no horário do almoço.

Os pobrezinhos, grande maioria deles em seus primeiros empregos, são obrigados a entregar prontamente o que o freguês pediu. Tal tarefa é facilitada pela padronização dos pedidos em combos, que nós clientes temos que aceitar. Não tem segredo, nº 1, 2, 3, 4 e etc. Sanduíche, batata e refrigerante. Com certeza o garoto do outro lado vai sugerir torta de maçã ou uma casquinha como sobremesa. Se for assim, vai fácil, mas vá você cismar que quer o seu sem cebola… Aí já era. Vai ter que esperar horrores até que alguém consiga interromper a linha de produção e te conseguir um sanduíche sem cebola. Contraditório, uma vez que na teoria seria mais simples fazer o lanche com um ingrediente a menos, mas não é. Qualquer coisa que saia do padrão causa transtornos.

Aí, tem um outro moleque, pouca coisa mais velho que os demais, que usa camisa branca de mangas curtas e gravata vermelha, que fica ali envolta “botando pilha” nos que estão tentando trabalhar. “Vamos”, “olha a fila”, “o cliente está esperando”, “cadê o pedido dele?”. Se esse gerentinho soubesse que grande parte dos clientes preferia esperar seu pedido sem aquela barulheira…

Aí eu fico imaginando como é a cabeça das pobres criaturinhas que ficam lá com suas camisetinhas cinza com listras amarelas e vermelhas, touquinha e boné, correndo de um lado para outro, se trombando e gritando o tempo todo. Acho muita loucura para quem está aprendendo o que é o trabalho. Ninguém merece ser introduzido ao mundo dos trabalhadores desta forma. Um nível de estresse que supera de longe o aceitável, cobranças e pressões desumanas e  salários baixíssimos. Não é isso que os jovens devem ter como parâmetro para o mercado de trabalho. O tempo da Revolução Industrial já era. A humanização das condições de trabalho é necessária. O grande “M”, que faz comerciais de TV sensacionais, e sanduíches nem tanto, poderia se esmerar em tratar melhor seus trabalhadores.

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Midnight Blue

Posted in Sons on 21/10/2008 by Kilminster

Let the Midnight Blue play. Even if it’s seven o’clock.

Even if it’s still day.

Let it play, all along. After a while, after a walk.

Let it play and the chords talk.

Let the guitar, the bass and the drums do their thing.

Listen close to the joy they bring.

Four minutes to eternity, swinging to the cool beat.

Jamming smoothly to the groovin’ heat.

Let it float the feet and let the bells ring.

Hear astonished to the choir sing.

She’s Leaving Home

Posted in Viagens on 19/10/2008 by Kilminster

Ela já tinha pensado tanto nisso…todos estes anos sempre fora uma bonequinha mimada, tivera tudo o que poderia querer, estudara nos melhores colégios e tinha as melhores roupas. Seu pai trabalhava o dia todo em um bom emprego e sua mãe era uma dona de casa dedicada. Nunca lhe deixaram faltar coisa alguma. Nunca deixaram que ela tivesse que lutar por qualquer coisa. Seus desejos eram prontamente atendidos. O que nunca conseguiu foi superar a sensação de vazio que trazia dentro de si. Sentia que não a percebiam como ela realmente era e que talvez nem percebessem que ela era de fato alguém. Seus pais escondiam atrás de uma aura de superproteção um profundo distanciamento. Não conversavam com ela, nunca quiseram saber o que se passava com ela. Apesar de seus dezessete anos ela se sentia como um bebê diante do pai e da mãe.
Ela estava prestes a iniciar a faculdade, mas tinha decidido não ir mais. O rapaz que conhecera nas aulas de francês parecia agora mais importante que tudo. Muito jovem também, ele já tinha um emprego e morava sozinho em um pequeno apartamento alugado no centro da cidade que para ela, tomava ares do mais suntuoso palácio diante da proposta de liberdade que representava. E o rapaz que nele morava era o príncipe encantado, com seu sorriso fácil e seu olhar sempre pronto a ouvir e a compreender.
Ela chorava pensando como diria tudo isto na pequena carta que escrevia. Não conseguia imaginar como colocaria seu coração em um mero pedaço de papel. As lágrimas correndo e o peito apertado traziam memórias de sua infância, quando ela se sentia feliz, mas ela sabia também, que aquele tempo passara e que ela não era mais a garotinha de vestidinho rodado que corria a abraçar o papai quando este chegava do serviço. Seu velho pai, por outro lado, ainda esperava ver a filhota com seus cachinhos pendendo sobre os ombros, vindo com os braços abertos em sua direção.
Sabia que feria seus pais e ela mesma morria um pouco por dentro, mas tinha tomado a decisão: trancaria a porta por fora e passaria a chave por baixo. Não voltaria mais.
Deixou a carta, desceu com cuidado as escadas carregando consigo uma mala com alguns de seus pertences: roupas, cadernos, perfumes e uma pequena boneca. Ao passar pelo hall pegou também um porta-retratos com uma foto de seus pais.
Saiu pela porta dos fundos. Olhou mais uma vez a casa, a janela de seu quarto, do quarto de seus pais, o quintal onde tanto brincara e correu. Correu com lágrimas nos olhos por um tempo que ela não soube dizer se foi muito ou pouco. Sumiu logo escada abaixo em uma estação de metrô.
Entrou no vagão e sentou-se sozinha. Tirou do bolso um papel com um endereço no centro. Sorriu, então. Uma sensação nova foi tomando conta dela e a perspectiva do que estava por vir a fez rir de felicidade ao mesmo tempo em que chorava as últimas lágrimas. Ela finalmente estava livre! Poderia agora ser quem era. Não era mais a bonequinha de cera da mamãe, era uma pessoa independente, dona de si, com vontades próprias e especialmente, capaz de lutar por elas.
Pouco a pouco se dissipava em sua mente a imagem dos pais, que agora choravam sobre a pequena carta, inconformados com a ingratidão da filha. O que mais ela poderia querer? Durante todo aquele tempo tinham vivido somente para ela e qual era a paga por tal sacrifício? Ela foi embora sem mais nem menos! O pai não sabia o que fazer para consolar a mãe que chorava sentada no alto da escada com a carta nas mãos. Na verdade não sabia mesmo o que fazer. Sentia-se um fracassado sem enxergar onde tinha errado.
Ela agora era garçonete. Vivia no centro da cidade em seu palácio com seu príncipe e era feliz. Descobrira que não era tão fácil ser dona de seu próprio nariz, mas sentia-se plena. Ia ao cinema às sextas feiras e aos domingos caminhava pelo parque. Servia as mesas com uma alegria inexplicável. Tinham sido as três semanas mais felizes de sua vida. Divertia-se sendo ela mesma, da forma que sempre quis, algo que dinheiro nenhum no mundo poderia comprar.
Foi quando reconheceu um carro que passava. O velho carro de seu pai. Correu até a porta do restaurante, mas o carro estava longe. Pôde ver apenas a silhueta de seu velho pai e sua velha mãe pelo vidro do automóvel. Sentiu o coração apertado, mas sabia que era melhor assim. Um dia ela voltaria à casa dos pais, mas ainda era cedo. Ela voltaria e tocaria a campainha, seria recebida na sala de visitas, tomaria chá e sairia ao final da tarde despedindo-se e prometendo não demorar a voltar

Orginalmente publicado aqui em 13/05/2007.

Revisiting

Posted in Olhares, Viagens on 15/10/2008 by Kilminster

Há dias em que o avesso das coisas nos atinge. Os astros em desalinho provocam reações no cosmo muito além da nossa compreensão, mas que nos afetam no sentido mais empírico possível. Sem explicação nos sentimos como que andando no contra fluxo da multidão sem a segurança de quem sabe para onde vai.
Uma massa de coisas, sons, imagens, luzes e vozes se misturam incompreensíveis à nossa volta como uma avalanche que desliza montanha abaixo soterrando nossa consciência e entorpecendo a mente que já não distingue bem seu próprio estado.
Turvado pelo movimento o pensamento em outra dimensão não alcança a realidade de si próprio. O tempo passa em outra velocidade, em outro ritmo e as coisas mudam de lugar aleatoriamente. A lógica se distorce e o que normalmente faz sentido torna-se inexplicável.
Uma embriaguez involuntária nos domina como se o álcool viesse do ar e através da respiração desoxigenasse nosso sangue espalhando partículas do irreal por todo nosso corpo desconectando nos de Gaia e nos arremessando ao acaso sem nos permitir atingir qualquer destino nos tornando intrusos em nosso próprio habitat, ao mesmo tempo apartados e presos ao que sempre fomos.
É uma psicodelia-bad-trip uma viagem às profundezas do inconsciente em momentos em que só há permissão para a lucidez e sobriedade. Não há abrigo, não há ponto de fuga. São buracos no oceano onde a chuva cai formando redemoinhos que nos tragam em círculos eternos. É só um retrato surrealista de uma vida por si só já bastante surreal. Uma revisão pessimista e evasiva de algo que já foi dito. Um teste para a compreensão e incompreensão de quem olha de fora.
Só o final do ciclo restabelece a harmonia entre as energias do universo e dos chakras. Força bruta é como nadar em areia movediça, concentrar-se é ilusão. A tormenta só passa quando sua hora é chegada. Nada pode aplacar a ira da natureza. Só nos resta esperar.

Originalmente publicado aqui em 05/12/2006

Eu gosto…

Posted in Olhares on 13/10/2008 by Kilminster

Gosto de acordar sem despertador, e que não haja barulho quando levanto. Gosto de abrir a janela e sentir a temperatura do dia e ver se o céu está limpo.
Gosto de leite gelado e de comer qualquer coisa que não demore a ficar pronta.
Não gosto de dar bom dia quando saio cedo. É que quando levanto cedo, levanto sem acordar. Preciso de um tempo de adaptação.
Gosto de música o tempo todo, para qualquer coisa. Gosto de escolher uma música que tenha a ver com meu humor e com a atmosfera do dia. Minha vida tem uma trilha sonora para cada pequeno ato.
Gosto de abrir a caixa de entrada de e-mails e ver várias novas mensagens e gosto de respondê-las sem economizar palavras.
Gosto de ouvir outros idiomas e ainda mais de compreendê-los.
Gosto quando o dia de trabalho passa rápido e a condução está boa.
Gosto do cheiro de cebola fritando no azeite e de tomar uma cerveja enquanto preparo o jantar. Gosto de inventar receitas e recriar receitas conhecidas, experimentar novos temperos e novas combinações.
Gosto quando ela usa sapatos de boneca e quando me diz coisas sem importância apenas para fazer valer a companhia.
Gosto quando a música nova sai de primeira e quando as pessoas gritam bastante. Gosto quando dançam como loucos e acreditam que aquele momento é único e não voltará mais.
Gosto de chegar em casa e não ter nada pra fazer. Gosto de ficar a toa, às vezes. Gosto de ver TV até tarde e de dormir só na hora em que o sono vence.

Originalmente publicado aqui em 28/02/2008.

O Santo Mais Legal

Posted in Viagens on 08/10/2008 by Kilminster

De todos os deuses da hierarquia politeísta católica, o mais legal é São Longuino, ou São Longuinho, como é conhecido por aqui. Ele é tão folclórico aqui no Brasil que poucos sabem se ele de fato existiu ou se é apenas coisa do povo, como São Nunca ou coisas assim. Mas ele existiu, e digo mais, ocupa lugar de destaque na Basílica de São Pedro, contando com uma estátua enorme bem no centro, de frente para o baldaquino.

Pouco se sabe sobre sua vida, mas acredita-se que ele era um dos centuriões presentes na crucificação de Jesus e que reconheceu o Nazareno como “o filho de Deus”. A partir daí alguns acreditam ter sido ele o soldado que perfurou o corpo de Jesus Cristo com uma lança, tendo então compreendido a natureza do crucificado.

Então, convertido, São Longuino abandona o exército romano e passa a professar a fé cristã. Como era comum aos cristãos da época, ele foi preso, torturado e morto, transformando-se então em mártir e santo.

Mas por que ele é o santo mais legal? Porque  aqui no Brasil ele tem a fama de ser capaz de encontrar objetos perdidos. Quer coisa mais útil? Quantas vezes ficamos como doidos pela casa tentando encontrar coisas como a chave do carro, aquela conta que tínhamos que pagar, ou de dois em dois anos, o título de eleitor? Aí é só proferir aquela frase “São Longuinho, São Longuinho! Me ache (o objeto perdido), que te dou três pulinhos”.

E veja só que magnânimo: O santo nos alivia esta pequena angústia por meros três pulinhos! Nada de anos sem chocolate, peregrinações a locais sagrados, confecções de ex-votos ou doações em espécie para instituições. Três pulinhos e pronto. Claro que para curar um câncer pulinhos não são lá uma grande promessa, mas para a chave do carro caída atrás do sofá tá ótimo.

Confesso que ao me deparar com a magnífica e imponente estátua feita pelo grande Bernini, fiquei surpreso. Não sabia de tal prestígio conferido ao santo, mas em compensação não hesitei, dei três pulinhos imediatamente. Não tinha perdido nada naquele momento, mas não precisava. Eu estava ali diante de sua representação. Não custava nada três pulinhos pelo conjunto da obra.

Me supreendeu também vê-lo ali esculpido como um soldado imponente. Em minha imaginação, desde a infância, ele era um velhinho encurvado e de olhar dócil. Imaginava que um santo que se dedica a objetos perdidos só poderia ser assim.

Mas o que importa mesmo é que nenhum outro santo é tão simpático. Ele resolve um problema de ordem prática e direta e, normalmente, em prazos curtíssimos. Por isso ele é o santo mais legal e que conta com a devoção de milhares de brasileiros. Eu mesmo espero poder contar com ele para encontrar as coisas que perdi.

Cauchemar

Posted in Viagens on 04/10/2008 by Kilminster

Aí eu estava andando por uns corredores estranhos, com pouca luz, tentando achar a porta de saída porque eu estava atrasado para o trabalho. Olhava pelas pequenas janelas e via que chovia bastante… Droga ia ser ainda mais difícil. Havia algumas pessoas que eu não conhecia em uma pequena sala à direita. Elas conversavam animadamente e me olharam com estranheza quando passei.

Finalmente achei a porta então. Tinha parado de chover. Mas que droga! Saí de casa sem me trocar! Preciso voltar… Não acho mais o corredor grande. Agora são umas escadas. Tenho que subir. Tento ir mais rápido mas não dá. E agora? Minhas roupas não estão no lugar. Vou ter que pegar emprestado com alguém. Mas quem? Qualquer um. Tem tanta gente nessa casa…

Não tem mais jeito. Já é muito tarde não vou conseguir chegar no trabalho nunca. Preciso ligar e avisar. Não tem telefone aqui. Nem consigo encontrar minhas coisas. E essas pessoas que falam sem parar? De onde vieram?

Me sinto cansado. Talvez devesse voltar para a cama.

Tudo escuro, agora…

A água estonteante escorre colorida em tons violeta e eu acordo bem quando não quero…