Em meio às pedras frias, os homens em seus trajes medievais cantam suas liturgias em línguas mortas em louvor a um deus que já não é o mesmo nascido há milênios em terras distantes. Seu canto monótono em uníssono reverbera na grande nave, chocando-se nos vitrais e subindo pelas altas colunas e paredes opressoras onde estão retratadas suas lendas, há muito forjadas em sua cultura e que é mantida a todo preço, resistindo ao tempo e aos novos ventos que sopram arrastando nuvens mostrando novas luzes e novas cores.
E assim vão repetindo seus ritos antigos em seu templo que contrapõe extrema austeridade com ostentação e luxo de uma instituição que se pretende pobre e que foi criada com o propósito de cultivar o amor e a humildade. Estranha contradição.
As poucas luzes e o silêncio quebrado apenas por ecos que chegam das ruas acentuam a imponência de suas imagens, seus signos, por vezes místicos e muitas vezes sincréticos, que se misturam inusitadamente em todos os espaços possíveis e imagináveis. Cada detalhe entalhado é um código deixado apenas para os que são capazes de lê-los, ou sagazes para descobri-los. Detalhes que mostram que há mais envolvido ali do que uma única simples tradição. Marcas de poderes diversos se espalham.
A sobriedade do recinto e de seus ocupantes com seus trajes escuros e a quietude desconcertante dão ao local um aspecto sombrio. Curioso então que procuremos estes lugares em busca de conforto e alívio. Como se sua grandeza e imponência fossem suficientes para que nos convencer do quão pequenos somos e o quanto são desimportantes nossas mazelas diante da grandiosidade de sua existência. Mas ainda assim é o que fazemos.
Talvez seja o simples fato de lançarmos nossas vozes contra o eco nas pedras frias que nos traga alento.



